Presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria
Exigências escolares afectam mais as crianças do que a gripe
Mais do que a gripe ou as infecções respiratórias, são as dores de cabeça e de barriga, os vómitos e mal-estar que afectam as crianças no início do ano lectivo, uma "doença" que os pediatras atribuem às exigências escolares.
"Neste recomeço do ano escolar, os principais problemas pediátricos não estão a ser a gripe nem as doenças infecciosas, que felizmente têm tido uma muito baixa expressão, mas sim as perturbações de comportamento induzidas por uma escola que está virada para os media", analisa o presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP).
Em entrevista à agência Lusa, a propósito do X Congresso Nacional de Pediatria, que começa amanhã em Tróia, Luís Januário alertou para a existência de "muitas crianças que não se coadunam com as exigências médias e que, quando são confrontadas com estas exigências, desenvolvem vários tipos de patologia". Essas patologias chegam aos profissionais de saúde através dos pais, que são alertados para um conjunto de sintomas que só duram durante a semana, os dias da escola.
"São meninos que durante a semana têm dor de cabeça e de barriga, vomitam e se sentem mal e os pais são chamados à escola porque estão mal e têm de ser retirados, mas quando chega o fim-de-semana comportam-se normalmente e tornam-se saudáveis", descreve Luís Januário. Esta "doença" resolve-se quando as crianças "perceberem o seu lugar, se conformarem com este, ou arranjarem estratégias para ultrapassar esses problemas", frisa o especialista.
Para os pediatras, estas manifestações comportamentais são um desafio constante, no âmbito das novas perturbações.
"A vida social modificou-se radicalmente: há uma socialização mais precoce das crianças, uma integração das crianças em espaços públicos - como as creches e os infantários - muito mais precoce, uma compartimentação da vida das crianças e uma sujeição a ritmos que não são os mais naturais e tradicionais e isso faz com que surjam de facto patologias novas", explica Luís Januário.
Entre essas manifestações estão a hiperactividade e o défice de atenção, hoje cada vez mais identificados, em parte devido aos constrangimentos que os denunciam. "A partir do momento em que as exigências escolares e curriculares passaram a ser muito mais apertadas, algumas perturbações revelaram-se em crianças que, normalmente, passavam as malhas do diagnóstico", sublinha o presidente da SPP.
Luís Januário defende, por isso, um debate na sociedade portuguesa em torno das "necessidades fundamentais das crianças, vistas em termos globais e não apenas do ponto de vista do crescimento". Ao nível da formação, defende uma revisão do currículo do internato de Pediatria para que se adeque a esta nova realidade. "É muito urgente que estes temas de comportamento, de desenvolvimento, relacionados, por exemplo, com a medicina de adolescência, façam parte do currículo do internato de Pediatria", aconselha.
Temas que estarão em destaque no congresso que decorre entre amanhã e sábado, sob o lema "Prevenção, comunicação e imagem" e para o qual estão já inscritos 954 participantes.n
Lusa