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28-07-2009
Ser, ou não ser: eis a educação

 

Ser, ou não ser: eis a educação

 

A educação não é uma dádiva dos deuses. A educação é uma obra assombrosa, fruto

da frágil elaboração humana. Quando bem utilizada, reconhecemos-lhe a força e o vigor

próprio das forças cósmicas. Quando instrumentalizada, em nome de valores

inconfessáveis, revela-se débil e ténue, como se não soubesse ser outra coisa que não

fosse a de ajudar a humanidade a ser cada vez melhor.

A educação, ou seja, a formação do ser nos saberes e nos valores, é anterior à escola e

aos obstáculos que lhe colocaram os currículos formais. A educação era uma

responsabilidade colectiva, era a medida do progresso de um povo e, como tal,

sancionada e avaliada por cada geração.

Ninguém podia ficar dispensado do acto de educar. E ninguém podia evadir-se do

processo e dos rituais inerentes aos procedimentos de socialização educativa.

Ser educado era ser parte do todo. Era ser membro de corpo inteiro e de pleno direito

da comunidade. De uma comunidade, toda ela educativa, que decidia também os

momentos de avaliação dos progressos colectivamente obtidos. Ser educado era ser

reconhecido, aceite e validado para passar de sujeito a actor.

Nesse tempo, não havia educação sem ensino, e todo o acto de ensino só faria sentido

se integrado num procedimento educativo, fosse ele formal ou informal.

Porém, o crescimento e o desenvolvimento das sociedades encarregaram-se de criar

múltiplos paradoxos. Por um lado, a evolução tecnológica e científica veio simplificar e

facilitar a vida do Homem. Por outro lado, o alastrar das comunidades

multidimensionais encarregou-se de complexizar o acto de educar.

A separação e a segregação de papéis e de funções levaram a que, a partir de então, a

tarefa de todos fosse apenas a missão a prosseguir por alguns. Em poucas décadas

nada ficou como dantes. Quanto ao resto, as doutrinas e os doutrinários encarregaramse

de sancionar o novo entendimento quanto ao funcionamento dos estados e das

nações.

Desde então, a educação foi repartida por múltiplos agentes. Desde logo, o próprio

Estado legislador e sancionador. Mas também as famílias, as novéis instituições

escolares, as comunidades religiosas, as associações de profissionais, os emergentes

agentes de comunicação massiva, os grupos de pares, e, enfim, o próprio indivíduo.

Esta mudança de paradigma provocou uma das maiores rupturas no acto de

socialização e de integração dos indivíduos nas sociedades que os viram nascer.

Esta mudança de paradigma provocou, dizíamos, a inacreditável separação do que, até

então, era considerado uno e indivisível, ou seja, a segmentação dos actos de educar e

de ensinar. A partir desse inqualificável acordo social, quem educa pode nem saber

ensinar e quem ensina pode não ter condições e meios para educar, fazendo recurso à

transmissão de valores, procedimento indispensável à concretização do acto educativo.

A separação das responsabilidades educativas entre a escola, as famílias, o Estado e os

agentes sociais significativos veio complicar ou dissolver o sentido dos deveres de cada

um, e abrir as portas às mútuas acusações.

A educação vale muito. Vale pelo menos a sobrevivência da humanidade. Vale a

felicidade, o bem-estar e a melhor das qualidades da vida. Vale a cultura: o pouco que

acrescentamos ao que já temos; mais a arte, a literatura, a pintura e a música. Vale a

cura e a salvação, a alternância, a tolerância e a diversidade. E a humanidade só

avança, só cria e se recria com base naquilo que recebeu, modelou e transformou.

Os governos perverteram a avaliação das escolas e dos professores no momento em

que privilegiaram indicadores de medida e de progressão inerentes aos modelos de

ensino e aos actos de aprendizagem. O que tem estado em causa para se alcançar uma

valoração das escolas e dos professores, tem sido o recurso à divulgação de rankings

cuja elaboração se baseia apenas nos resultados escolares dos alunos. Para estes

responsáveis pouco importam os resultados educativos. Isto é: saber muito do currículo

formal é bom. Francamente bom, dizem! Mesmo que disso resultem algumas práticas

marginais e desviantes desses indivíduos durante a frequência do currículo informal ou

oculto. Práticas essas que escapam aos indicadores dos especialistas da avaliação e da

classificação através dos resultados puramente escolares.

Por sua vez, saber pouco do currículo formal é dramático! Mesmo que isso signifique

enormes passos alcançados no sucesso educativo das aprendizagens sociais desses

alunos…

São as políticas de educação que temos, mas que não sancionamos. Não as

perfilhamos, precisamente porque queremos que a escola e os seus professores sejam

sujeitos a um olhar diferente. Que sejam os melhores elos sociais e que possam ver

reconhecida a sua capacidade profissional para a co-partilha e para a coresponsabilização

do ensino e da educação das crianças e dos jovens que a sociedade

lhes entregou, para que os devolvam mais maduros, mais sabedores e mais justos.

João Ruivo

ruivo@rvj.pt


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