Dossiê bullying: identificar e prevenir
(In DECO PROTESTE)
João Grancho, coordenador de Convivência nas escolas
Para o Presidente da Associação Nacional de Professores, responsável pelo projecto, acabar com o tabu do bullying e alertar as autoridades são as grandes conquistas.
“Em 3 anos, prestámos cerca de 620 serviços de apoio, sobretudo, psicológico, a professores, alunos e famílias”
Depois da linha de apoio a docentes, em Setembro de 2006, seguiu-se outra para alunos e familiares, em Maio de 2008, entretanto integradas. Como evoluíram os contactos?
Até 2008, foram intensos em número e em horas de apoio. A linha garantia um horário diário de 5 horas e acabou por funcionar 12. Nalguns casos, um só contacto durava 2 a 3 horas e continuava nos dias seguintes. A partir de 2009, os pedidos decresceram de forma gradual e consecutiva, em quantidade e gravidade.
Hoje, são poucos e estamos perto do objectivo do lançamento: o dia em que não registarmos pedidos. As vítimas têm muito mais apoio e não sentem necessidade de encobrir as situações. Mas ainda há muito a fazer, sobretudo, ao nível da prevenção.
Qual o papel do projecto Convivência nas escolas?
A grande conquista foi acabar com o tabu do bullying e a visão de que não era importante, porque afectava poucos. Há violência nas escolas, mas os instrumentos legais, a celeridade das actuações, a atenção das autoridades escolares, policiais e judiciais, e a intolerância social face ao fenómeno evoluíram muito positivamente.
O que falta fazer?
Nas escolas, há relações de abuso entre colegas. Devemos impedir que os incidentes se repitam ou aumentem e promover uma sã convivência, ou seja, agir directamente com os alunos e os adultos importantes da sua vida, como professores, pessoal não docente e encarregados de educação. Todos devem cuidar das relações afectivas e quotidianas com os colegas.
Os professores são como a tábua de salvação de alunos vítimas de maus-tratos e devem estar atentos.
Costumamos dizer aos jovens vítimas para não ficarem quietos sem fazer nada, que denunciem a sua situação a alguém, de preferência um adulto, em quem possam depositar toda a confiança. Quem melhor do que os pais?
Por outro lado, é necessário investir em equipas multidisciplinares: psicólogos, educadores sociais, assistentes sociais, psicopedagogos, professores especializados em mediação escolar e entidades de segurança e de saúde. Estes devem ser os interlocutores dos jovens, famílias e comunidade.

Como acompanham pedidos?
Na equipa, somos 6. Além de mim, há uma especialista em mediação de conflitos, uma psicopedagoga, duas professoras especializadas em mediação escolar e uma advogada. Não interpelamos escolas nem facultamos dados, por confidencialidade. Só em dois casos graves e após pedido dos envolvidos e por escrito, contactámos as autoridades. Perante a indiferença de quem tinha de agir, por obrigação e competência, alguns envolvidos informaram que revelar o contacto com a linha ajudou a uma resposta mais enérgica ao problema.
Porque se optou por integrar as linhas de apoio a professores e alunos?
Em primeiro lugar, a violência escolar é um fenómeno transversal, em que os protagonistas, agressores e vítimas, assumem comportamentos semelhantes, no mesmo espaço, ainda que em idades e estatutos diferentes. Depois, havia que optimizar os recursos humanos da linha e os custos avultados. Devíamos focalizar a nossa energia, recursos e conhecimento a promover a convivência escolar.
Articulam-se com as escolas?
Além da linha, ajudamos a implementar mecanismos de prevenção de violência escolar, através de workshops, formação e sensibilização, participação em conferências e dinamização de projectos que envolvam alunos, famílias e professores, entre outros
Retirado de http://www.deco.proteste.pt/educacao/dossie-bullying-identificar-e-prevenir-s594711.htm em 5 Abril 2010